quinta-feira, 8 de abril de 2010

coração aflito

voltei pela praia - como de costume - mas hoje foi diferente.
diferente porque o mar era pura ressaca.
diferente porque a ressaca tinha deixado todo o lixo na areia.
porque se tinha virado refém dentro das casas.
porque as casas - muitas casas - já não estavam de pé.
porque com as casas, as pessoas, dentro, também não tinham ficado de pé.
porque para onde se olhava, se chorava. de desespero. de espanto.
de algo que há pouco havia se perdido: a esperança.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Naquela madrugada não havia mais nada que se pudesse fazer. Estava de férias e acordava tarde todos os dias, almoçava quase na hora da janta e à noite ficava procurando o que fazer. Na maioria das vezes acabava era dormindo mesmo, depois de fazer uma coisa aqui outra acolá. A noite sempre fora parceira em leituras, escritos e devaneios. E naquela madrugada resolvera escrever. Não, não tinha um tema. Mas como de costume, a primeira frase veio na cabeça e pronto. Estava feito. Ou melhor, ainda seria feito. Mais algumas frases e nada ainda. Olhou em volta. Não queria nada tão denso, porque sentia-se leve. Leveza ou vazio? Roeu a unha. Parou - não roía mais as unhas. Pensou em falar de alguma coisa casual, talvez do carro que tinha enguiçado na saída do supermercado. Não.. não saberia o que dizer além disso. Não saberia o que dizer sobre nada naquela noite. Os pensamentos estavam dormindo. Os sentimentos também. A vontade de escrever talvez não tivesse sentido, naquele momento. Resolveu de súbito dormir também. Talvez nos sonhos, achasse o que dizer.

sábado, 23 de janeiro de 2010

Gosto de listas. De fazer listas. Dos filmes que quero ver, dos livros que gostaria de ler, de tarefas cotidianas. Sinto prazer em riscar o que já foi realizado e circular o que ainda não foi.
Faço isso com frequência. Em qualquer lugar, com pedaços minúsculos de papel - porque inspiração não tem hora pra acontecer. A de hoje (a lista) me veio no cinema.
Essas coisas acontecem na vida das pessoas sem motivo, sem nenhuma grande razão filosófica, sem que nenhum sinal tenha vindo antes.
Foi o filme (que deu origem à lista e a esse depoimento). Talvez uma tentativa de entendê-lo. Bom. Esquisito também. Não diria cotidiano, mas possível, provável como tudo - já que tudo é passível de ser imaginado, escrito, dito, sentido, filmado.
"Experimente, para o seu bem, querer o que vc já tem"

Bel Garcia

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Historinha de ninar crianças e adultos

Pra ela a forma mais completa de viver era semeando. Semeava amigos, semeava boas risadas, conversas infinitas num banco de praia, o sol, semeava tudo que lhe cabia - tirando, é claro, nos dias de mal humor.
Aprendera a semear simplesmente, fosse o que fosse. A duras penas. Porque tinha também outro lado que era contrário, tinha maneira fácil de enraizar. E querer que o mundo fosse o mesmo, porque ela também era a mesma. E era o que lhe dava serenidade.
Ficou muito tempo assim, enraizando e aglomerando tudo o que era possível. Se apegava, e aí era difícil deixar algum pedacinho seu sair pela vida, a passear sem ela. Não era, de modo algum, por maldade ou vaidade, era só por não querer perder o que lhe era importante, essencial.
Quando as mudanças vinham, sofria. E parecia um grão, de tão pequena que ficava. Chorava, se trancava em casa, até o momento que se sentia de bem com ela de novo.
E lá ia ela para mais um acolhimento, de gente, de coisa, de sentimento. Agarrava todos os seus momentos e era feliz assim.
Um dia, confundiu alguma coisa lá dentro e teve vontade de fazer um passeio que nunca tinha feito antes. No outro dia, quis experimentar uma fruta que ainda não tinha provado. Dali, foi querendo conhecer mais e mais coisas que nem sabia que existiam, porque nunca sequer tinha olhado para elas.
Ficou intrigada. E se perguntava como isso podia ter acontecido. Percebia agora que algumas raízes já estavam envelhecidas e secas, e que era hora de deixá-las ir embora. Doeu ter que arrancar algumas raízes, mesmo sendo necessário.
Mas percebeu que mesmo depois disso, ela ainda podia lembrar. Passou a lembrar com carinho de todas as raízes que tinham passado. E ficou satisfeita com a possibilidade de poder semear, até o momento que aquilo lhe fizesse feliz.
Ficou contente de poder lembrar das raízes e semear quantas mais sementes fossem precisas para a vida ter o colorido que o seu momento, a cada momento, pedia.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Tudo tem prazo de validade.
Parece que o mundo todo tem.
No supermercado, variados prazos de validade.
Unhas vermelhas, uma semana no máximo.
Cadernos, canetas, faculdade.
Tudo tem prazo de validade.

O ano tem prazo de validade, 365 dias (com algumas variações).
A chupeta do bebê.
A boneca da criança.
O namoro da menina.
O mundo todo tem prazo de validade.
Parece que só me dei conta agora.

Bisbilhotando blogs alheios..

"Voar é não deixar morrer a música, a beleza, o mundo e é também fazer por escrever tudo isso"..

"Semente. Muito mais que raízes"..

"Uma memória a ter-se, mas não aquela que o futuro impeça"..

"Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro"..

"Os (...) riscos mudaram, os olhos têm mais caminhos para percorrer, e há surpresa"..

"Uma certa apreensão, retorno de um desconforto, da dúvida, do mesmo trilho. A dúvida, a dúvida, a dúvida. De novo o medo de errar"..

"Uma vírgula para separar os lábios. Sonhos restritos"..

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

12 de dezembro, no 996

É isso. O segredo é que não existe segredo. Se tem, o segredo é regar. Todo dia. Para sempre. Se quiser que seja pra sempre. Quanto tempo que uma planta vive sem água? 2, 3 dias.. Acho que é esse o tempo máximo que dura sem molhar. Depois morre. Talvez seja esse o segredo: as coisas duram enquanto se rega.
"Quanto tempo leva pra aprender que uma flor tem vida ao nascer? (...) Quando mentir for preciso, poder falar a verdade"
MariaGadú

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Convenções são regras estipuladas por alguém ou alguma instituição, em determinado momento. Não precisam nem sequer serem coerentes ou coisa que o valha. Só precisam ser respaldadas por gente erudita, gente da biopolítica ou gente que acredita em céu e inferno, bom e mal, mocinho e bandido. A vida prática é bem diferente dessa teoria de dualidades. Aliás, se a vida se resumisse à dualidades era "mamão com açúcar" - igual era de fato e literalmente quando minha bisa cortava o mamão em cubinhos e cobria com açúcar pra me dar assistindo televisão. A vida é muito mais que isso, é caos, é conflito, tempestade, vendaval. Na prática, convenções não existem; o que existe é a vida, turbilhão.


(bastam alguns minutos, alguma conversa, uma frase solta, um olhar que se perde no nada..)

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Pq hj acordei romântica (parte 2)


"Se minhas loucuras tivessem explicações, não seriam loucuras"
Nietzsche